Dá pra começar um delivery usando a cozinha de casa, e muita gente começa assim. O que derruba o plano costuma ser o que vem antes do primeiro pedido: a regra da sua cidade, o preço que não fecha e a falta de um jeito de receber pedidos sem virar refém do celular. Aqui você vê o caminho na ordem certa, com o que dá pra gastar menos e o que não dá pra pular.
Resposta curta: pra montar um delivery em casa: confirme na prefeitura e na Vigilância Sanitária se a sua cidade permite, escolha um cardápio curto que viaja bem, abra um MEI, calcule o preço com todas as taxas, adapte a cozinha às boas práticas e comece a vender por um link no WhatsApp e, se a margem aguentar, no iFood.
Como montar um delivery em casa em 7 passos
1. Confirme se a sua cidade permite
Este passo vem primeiro porque é o único que pode cancelar os outros. O guia de dark kitchen do iFood avisa que muitas prefeituras proíbem manipular alimento para venda em residência. Já o guia de marmitas do Sebrae trata começar com recursos domésticos como viável. As duas coisas são verdade: a resposta muda de cidade pra cidade.
Pergunte à prefeitura se o seu endereço aceita a atividade e à Vigilância Sanitária o que ela exige de uma cozinha em casa. Em apartamento ou condomínio, leia também a convenção do prédio.
2. Escolha o que vender
Comece pelo que você já faz bem e que tem procura perto de você. Abra o iFood no seu endereço e veja o que já existe, o que falta e quanto custa. Depois teste o produto no caminho real: embale, deixe 20 minutos na mochila e prove. O Sebrae recomenda cardápio com pratos que mudam pouco no transporte.
Mantenha o cardápio curto. O iFood sugere de 5 a 10 itens, e em casa isso pesa ainda mais: a geladeira e o fogão têm limite, e menos itens significam menos ingrediente parado.
3. Abra o MEI
Abrir o MEI é grátis e pode ser feito online, e quem não tem ponto comercial pode usar o endereço de casa, segundo o guia do iFood para abrir MEI. Os números de 2026, do guia de MEI para restaurantes do iFood:
| Regra do MEI | Valor em 2026 |
|---|---|
| Faturamento máximo | R$ 81 mil por ano |
| DAS com só ICMS (comida pronta) | R$ 82,05 por mês |
| DAS com ICMS e ISS | R$ 87,05 por mês |
| Funcionários | No máximo 1 |
Marmiteiro, doceiro, salgadeiro e cozinheiro de refeições prontas entram no CNAE 5620-1/04. Confira a atividade certa no Portal do Empreendedor antes de confirmar, porque escolher uma que não é permitida ao MEI causa desenquadramento. O DAS vence todo dia 20, mesmo em mês sem venda.
4. Faça o preço fechar
Vender bem não garante que sobre dinheiro, ainda mais com preço copiado do concorrente. Some ingrediente, embalagem e taxa do canal de venda, e veja o que resta. Neste exemplo, com números inventados pra mostrar a conta, uma marmita sai por R$ 20:
| Pedido direto (Pix) | iFood Básico | iFood Entrega | |
|---|---|---|---|
| Ingredientes | R$ 8,00 | R$ 8,00 | R$ 8,00 |
| Embalagem | R$ 1,50 | R$ 1,50 | R$ 1,50 |
| Taxas por pedido | R$ 0,00 | R$ 3,04 | R$ 5,24 |
| Sobra | R$ 10,50 | R$ 7,46 | R$ 5,26 |
As taxas usam os valores do iFood com pedido pago pelo app: 12% de comissão no Básico, em que você entrega, e 23% no Entrega, mais 3,2% de pagamento nos dois. Acima de R$ 1.800 no mês, ainda entra a mensalidade de R$ 110 ou R$ 150. Dessa sobra ainda saem gás, luz, DAS e o seu trabalho. E no pedido direto com entrega sua, a taxa de entrega cobrada precisa pagar quem leva.
5. Adapte a cozinha
Comece pelo que muda a segurança da comida, e não pelo que parece profissional. A RDC 216 da Anvisa, que inclui a entrega de alimentos preparados, pede Manual de Boas Práticas, Procedimentos Operacionais Padronizados e um responsável pela manipulação com curso de capacitação. Esse responsável pode ser você.
O guia do Sebrae lista o que a fiscalização costuma olhar:
- Produto de limpeza separado dos alimentos.
- Telas nas janelas contra insetos e lixeira com pedal.
- Piso branco e bancada de inox.
- Áreas de preparo de crus e cozidos separadas.
- Esgoto regularizado, com caixa de gordura independente.
Se a estrutura da sua casa não permite essas separações, a resposta da Vigilância Sanitária no passo 1 vai mostrar o que precisa mudar.
6. Resolva a entrega e o pagamento
No começo, você tem três caminhos: entregar você mesmo num raio pequeno, combinar com um motoboy por corrida ou deixar a entrega com o app, no plano que inclui entregadores. Comece com uma área pequena: comida chega melhor, e o entregador volta mais rápido.
Pra pagamento, o Pix é o mais simples, porque o dinheiro entra na hora e sem maquininha. Se aceitar cartão na entrega, coloque a taxa da maquininha na conta do passo 4.
7. Venda primeiro pra quem já te conhece
Família, colegas de trabalho, grupo do prédio e vizinhos são os primeiros pedidos. Eles também dizem o que está bom e o que chegou frio, antes de uma avaliação pública. Faça poucos dias por semana no começo e só aumente quando a operação aguentar.
Delivery em casa precisa de alvará?
Depende da cidade e de como o negócio está registrado. O MEI tem um caminho próprio: ao abrir o CNPJ, aceita um Termo de Ciência e Responsabilidade que dispensa alvará e licença de funcionamento. Só que esse termo traz uma declaração de que você cumpre as regras sanitárias, de uso do solo e de atividade domiciliar, e autoriza a fiscalização até na sua residência, como mostra o trecho da Resolução CGSIM 48/2018 citado no parecer da Vigilância Sanitária de Joinville. Dispensa de papel não é permissão pra funcionar fora da regra.
Quem não é MEI costuma precisar do alvará. A Lei Complementar 123 prevê alvará provisório em residência quando a atividade não gera grande circulação de pessoas e não é de alto risco.
| O quê | Quem responde | Pra MEI em casa |
|---|---|---|
| CNPJ (CCMEI) | Portal do Empreendedor | Sai na abertura, grátis |
| Alvará | Prefeitura | Em geral, dispensado pelo Termo; uso do solo continua valendo |
| Licença sanitária | Vigilância Sanitária | Depende da cidade; as regras sanitárias continuam valendo |
| Curso de boas práticas | Responsável pela cozinha | Exigido pela RDC 216 |
Fique de olho em uma diferença: o iFood diz, no guia de cadastro, que a falta de alvará e licença sanitária pode travar a aprovação, embora esses documentos não estejam na lista de documentos da mesma página. Se o seu plano inclui o app, confirme com o iFood o que ele aceita no caso do MEI antes de contar com isso.
E a Vigilância Sanitária?
A RDC 49/2013 da Anvisa permite regularizar MEI que trabalha em casa, considerando o risco sanitário, com a condição de aceitar a fiscalização no local. O detalhe de quem precisa de licença fica com o município:
- Cidade de São Paulo: as perguntas frequentes da Secretaria de Saúde dizem que o MEI está dispensado da licença de funcionamento sanitária, mas continua obrigado a cumprir os requisitos sanitários.
- Joinville: o parecer de 2023 conclui que o município não tem base legal pra exigir licença sanitária de MEI, e lembra que a fiscalização pode entrar a qualquer momento, inclusive em residência.
Esses são exemplos, e não valem pro país inteiro. Sem regularização, o guia do iFood lista autuação, multa e interdição imediata como riscos. Por isso, faça a pergunta à Vigilância Sanitária do seu município e guarde a resposta por escrito.
Quanto custa montar um delivery em casa
O número mais útil que encontramos é o do guia do Sebrae, para 20 a 30 marmitas por dia. O próprio Sebrae chama de estimativa, e o material usa dados de até 2022, então confira os preços de hoje.
| Item | Valor estimado |
|---|---|
| Equipamentos (fogão industrial, geladeira e outros) | R$ 4.000 |
| Informática (computador, impressora, telefone e sistema) | R$ 3.000 |
| Mobiliário, utensílios e embalagens | R$ 1.500 |
| Reforma, alvarás e licenças | R$ 1.000 |
| Capital de giro | R$ 2.500 |
| Total | R$ 12.000 |
Como começar com pouco dinheiro
Com pouco dinheiro, corte o que ainda não trava a produção, e nunca o que protege a comida:
- Use o que você já tem. Fogão e geladeira de casa podem segurar o início, desde que deem conta do volume e passem pelas regras da sua cidade.
- Comece pelo celular. Computador e impressora podem esperar os primeiros pedidos, o que reduz boa parte dos R$ 3.000 de informática.
- Faça um produto só. Menos ingrediente, menos panela e menos dinheiro parado na geladeira.
- Não corte o capital de giro. Ingrediente, gás e embalagem saem antes do dinheiro entrar. No iFood, ainda tem o prazo de repasse.
Onde vender: iFood ou link próprio
Os dois têm um trabalho diferente. O iFood põe a sua loja na frente de quem ainda não te conhece, e cobra por isso em todo pedido, como mostra a conta do passo 4 e o artigo sobre a taxa do iFood. Pra quem está em casa, com poucos pedidos e sem marca, esse alcance pode valer a taxa.
O link próprio não traz cliente novo sozinho. Você precisa divulgar no WhatsApp, no status, no Instagram e no saquinho do pedido. Em troca, o pedido do cliente que já te conhece não paga comissão. Se ainda está no começo, veja como colocar o cardápio no WhatsApp: dá pra começar com um PDF, sem pagar nada, e trocar por um link quando responder cada conversa à mão virar o problema.
O MenuAqui é uma das opções pra esse link. O cliente monta o pedido, escolhe entrega ou retirada, e o pedido chega no seu WhatsApp. Você define a taxa e a área de entrega e pode cadastrar a sua chave Pix. O pagamento é acertado direto entre você e o cliente, e não há comissão por pedido. Em compensação, tem uma assinatura mensal, que pesa mais quando os pedidos ainda são poucos.
Quando sair de casa
Três sinais costumam indicar que a cozinha de casa ficou pequena: a família não consegue mais usar a cozinha, o fogão e a geladeira limitam os pedidos, ou o faturamento se aproxima dos R$ 81 mil por ano do MEI. O próximo passo não precisa ser um restaurante. Veja os modelos e os custos no artigo sobre dark kitchen, que inclui cozinha compartilhada e alugada.